sábado, 15 de agosto de 2020

Cultura: 300 definições, 2 equívocos e alguns desafios


O historiador russo Mezhuiev em A cultura e a história, produzido na década de 70 do século passado, compilou mais de trezentas definições sobre cultura. Isso denota a riqueza de interpretações e o deslumbramento pelo tema. [...] E eu lhe pergunto: qual é o seu conceito de cultura? Pense um minuto e formule um. O Joca, um lavrador típico do nosso interior, encontra um compadre na festa da padroeira e comenta: "Ói, sô. E num é que a minha fia, a Mariquinha, vai desencalhá?! O noivo é um professor lá de Água Azul. Eu tô achando é bão, proque a Mariquinha num tem cultura nenhuma." 

Nesse caso do Joca, a palavra cultura é usada como atributo daqueles que frequentaram os bancos escolares. É usada de maneira que classifica e hierarquiza os sujeitos e suas relações sociais, servindo para preservar desigualdades e funcionando como instrumento discriminatório. Quando o Joca comete o equívoco de afirmar que o povo da roça é desprovido de cultura, ele reproduz um discurso ideológico dominante que visa desqualificar a cultura rústica do sertanejo.[...] 

Ao fazermos a distinção entre as maneiras de viver das coletividades [...],começamos a catalogar, por exemplo, as várias manifestações culturais e a entender que não existe uma cultura: a cultura são muitas! Uma divisão clássica criada para explicar esse conceito é a que a separa em três campos: cultura erudita, cultura popular e cultura de massa. Falando de bate-pronto, a primeira se refere à cultura letrada, alimentada pelo modo de vida das elites e que se espelha nos salões das artes. 

 A cultura popular emerge das práticas espontâneas das classes subalternas e tem como referencial a rua. E a cultura de massa está ligada ao advento da sociedade de consumo, que gerou uma indústria cultural cuja expressão maior é a mídia eletrônica. Essas definições contribuem para esclarecer a complexidade do real, mas, como tudo, apresentam fragilidades, provocadoras de um primeiro equívoco que desejamos ressaltar. 

Quando Adoniran Barbosa compôs Saudosa maloca – Foi ali seu moço / Que eu, Mato Grosso e o Joça / Construímos nossa maloca –, ele era a expressão máxima da cultura popular brasileira (a do Joca sertanejo do interior e a do Joca urbano da periferia). Entretanto, o compositor não ficou circunscrito ao bairro do Bexiga paulistano, e sua música rendeu muito lucro à indústria fonográfica, pois estourou nas rádios nos anos 60 do último século. 

 O espirituoso Adoniran fez parceria com o poeta Vinicius de Moraes, que foi diplomata brasileiro nos Estados Unidos e na Europa e um intelectual internacionalmente reconhecido. Os três conceitos de cultura se plasmaram, borrando o rigor acadêmico que muitas vezes aprisiona as definições. E qual é, então, o nosso segundo equívoco? É a utilização da palavra cultura com um sentido restrito às artes. Os departamentos de cultura em diversos tipos de organismos, normalmente, são criados para promover espetáculos e entretenimentos artísticos. Entender cultura apenas como teatro, circo, dança, literatura ou festas é uma visão reducionista da cultura. 

Cultura diz respeito aos costumes, aos modos de vida, às manifestações artísticas, às formas de organização política, ao conjunto de estruturas sociais e religiosas..., enfim, a cultura é fruto da sociedade humana. No dia em que o macaco deixou de ser chipanzé e transformou-se no Homo sapiens, nasceu a cultura.[...] 

Por mais diversa e heterogênea que sejam as territorialidades do povo brasileiro, com diferentes etnias, tradições, sotaques, cores e formas, existem traços peculiares que formam a nossa cara. Essa afirmação de povo é um dos grandes desafios que está colocado para um país emergente como o Brasil. Como valorizar as nossas raízes sem cair em xenofobismo míope e se fechar para uma riqueza de saberes e influências contemporâneas cada vez mais profusas? 

Como escapar de uma globalização que busca homogeneizar tudo, apagando diferenças e memórias e fortalecer a nossa autonomia criativa e multicultural? 

Texto extraído  de: http://www.sesipr.org.br/uploadAddress/Glossario%20de%20Cultura_arquivo[33313].pdf.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

TEORIA DO CONHECIMENTO (QUAL É A ORIGEM DO NOSSO CONHECIMENTO, COMO CONHECEMOS AS COISAS?)

Michel Gustavo de Almeida Silva

Imagem disponível em: https://tudosobreposgraduacao.wordpress.com/2016/01/13/conhecimento-experiencia-e-criatividade-2/


Uma ideia muito difundida na atualidade é a de que o ser humano é um ser pensante. 
É plausível afirmar que o que nos difere dos demais animais é a capacidade de pensar, que a nossa essência é a racionalidade, pois não seguimos cegamente os nossos instintos e interagimos com os eventos da realidade, sendo capazes de relembrar o passado, compreender o presente e planejar o futuro.

Compreendemos o mundo, damos sentido as coisas, fatos, acontecimentos o que ouvimos e pensamos, graças ao uso da nossa razão.
Somos os habitantes do Planeta Terra que têm o conhecimento, sabe que existe e compreende o mundo ao nosso redor, mas o que é o conhecimento?

Segundo Goto (2003), na relação entre o homem e a realidade, o conhecimento é produzido. Essa relação envolve três elementos: o sujeito (o homem), o objeto (a realidade) e a ação de conhecer. 
O referido autor apresenta o conhecimento como uma relação ativa, pois ao tentar conhecer o objeto, o sujeito opera com sua linguagem, ideias, observações, pensamento, pesquisa. 
Aranha (1993) pontua que o conhecimento é transmitido pela educação dos conhecimentos acumulados em uma determinada cultura, pois a razão é histórica
Assim, devemos questionar: onde começa o conhecimento?
No sujeito ou no objeto? Conhecemos pela experiência dos sentidos ou pela razão?
O homem apreende o conhecimento pela razão, pelo discurso, mas também pela intuição.
Segundo Aranha (1993), a intuição é o ponto de partida do conhecimento. Surge então a questão: Como podemos afirmar que um conhecimento é verdadeiro?

Para o filósofo inglês David Hume, filósofo empirista que defendia a noção de que todo o nosso conhecimento tem origem na experiência e que as nossas ideias são cópias das nossas impressões sensoriais: “Todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas; mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. Assim, todas as ideias do homem ou percepções menos vívidas são cópias de suas impressões ou percepções mais vivas” (HUME, 1999, p. 11).

Para o filósofo francês, René Descartes, filósofo racionalista que defendia a noção de que a razão é a origem do nosso conhecimento, só sabemos as coisas porque somos seres pensantes: “Mas o que sou eu então? Uma coisa pensante. O que quer isto dizer? Quer dizer: uma coisa que duvida, que compreende, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que também imagina, e que sente. (DESCARTES, 1992, p. 124.)

Quando se conhece, parte-se da premissa de que para ser verdadeiro, o enunciado deve corresponder a realidade. Aranha (1993), mostra-nos que, para Descartes, o critério da verdade é a evidência.

Já para Nietzsche, é verdadeiro tudo o que contribui para o desenvolvimento da espécie e falso o que é obstáculo para seu desenvolvimento.

Para os lógicos, o critério de verdade está na coerência interna dos argumentos.

Já para os céticos radicais, “toda certeza é impossível e a verdade é inacessível”.
Em contrapartida, baseados em princípios, os dogmáticos afirmavam que o homem pode atingir a certeza. Para eles: “a razão humana tem a possibilidade de conhecer a realidade” (Aranha, 1993, p.25).

Conclui-se então que, diante da relativização presente na pós-modernidade, a busca pelo conhecimento e a busca pela verdade permanecem contempladas em suas diversas dimensões, facetas, visões e tempo histórico.

Referência Bibliográfica.

ARANHA, M.L.DE A. MARTINS.M.H.P. Filosofando: Introdução à Filosofia. 2.ed.rev.atual.- São Paulo:Moderna, 1993.
Descartes, René, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra: Livraria Almedina, 1992.
GOTO, R.A. Começos de Filosofia. Campinas, SP: Editora Átomo, 2003, 140p. 2ª edição.
HUME, D. Investigação acerca do entendimento humano. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

Refletindo sobre a ética na atuação do Organismo Internacional ONU ( 2° Ano - Novo Ensino Médio - 4°Bimestre)

Acesse o site, disponível em: https://infoonu.wordpress.com/2012/11/16/criticas-a-atuacao-da-onu/ -Leia o texto: Críticas a atuação...